“Portugal tem muitos produtos para entrar no mercado norueguês”

Por Revista Invest | 14 de abril, 2015
  • Entrevistas
    Clara Nunes dos Santos, embaixadora de Portugal em Oslo, na Noruega (DR)
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    “A Noruega tem mantido níveis de crescimento bastante acima da média europeia” (DR)
A embaixadora de Portugal em Oslo, Clara Nunes dos Santos, considera que existem muitos produtos e serviços com potencial para entrar no mercado da Noruega. Diz quais e deixa alguns conselhos para a abordagem das empresas lusas àquele mercado.

Embora ainda haja algum desconhecimento do consumidor norueguês pelos produtos portugueses, existem muitos que têm um grande potencial. Esta é a convicção da embaixadora de Portugal em Oslo, na Noruega, nesta entrevista realizada por escrito. Para Clara Nunes dos Santos, a Noruega não é um mercado fácil, mas existem alguns argumentos que podem ser decisivos à realização de parcerias, como, por exemplo, a facilidade de ligação das empresas lusas aos países de língua oficial portuguesa.

 

Neste contexto, adianta alguns dos produtos ou serviços com maior apetência para entrar na Noruega, um mercado que tem vindo a crescer de forma sustentada e que, apesar da sua população, cerca de 5,1 milhões de habitantes (metade da portuguesa), regista um PIB na ordem dos 506 mil milhões de dólares, duas vezes superior ao nosso, tendo em conta os valores de 2013.

 

Os dois países possuem extensas áreas marítimas, mas a Noruega é um dos líderes do setor marítimo a nível mundial, representando a economia do mar 20% do PIB”, o que, na ótica da embaixadora, “é natural que Portugal encare com muito interesse a cooperação em tudo o que se insira neste setor”.

 

 

 

Como estão as relações diplomáticas e comerciais entre Portugal e a Noruega?

 

As relações diplomáticas entre Portugal e a Noruega destacam-se por registarem desde há muito um excelente entendimento, como é de esperar entre países que partilham os mesmos valores e estão inseridos em quadros comuns, sendo ambos membros da NATO e cooperando no âmbito do Acordo Espaço Económico Europeu entre a UE e a EFTA.

 

Destacaria como um dos aspetos mais positivos desta relação o facto de Portugal ser beneficiário dos projetos “EEA/Noruega  Grants”, que abrangem várias áreas de cooperação e que são um excelente exemplo do apoio que a Noruega tem prestado ao nosso país.

 

No que respeita às relações comerciais, que são muito antigas entre os dois países, têm mantido um registo constante, embora se note já sinais de mudança que esperemos se confirmem no futuro.

 

Evidentemente que há ainda muito para melhorar, uma vez que relações são ainda muito marcadas pelo comércio no quadro dos setores tradicionais, embora se note já uma alteração de padrão. Acreditamos que Portugal poderá mudar a perceção que o mercado norueguês tem da economia portuguesa, concretamente no que respeita a tudo o que o país pode oferecer a nível de produtos, turismo e investimento, tanto através de uma melhor perceção da realidade portuguesa, acompanhada de mais interesse nos nossos produtos, como através de uma atuação mais ativa por parte dos exportadores nacionais, que têm demonstrado um interesse crescente no mercado norueguês.

 

 

Nos últimos anos tem havido uma evolução desta relação?

 

Temos verificado um ligeiro aumento ao nível das trocas comerciais e ao nível do Turismo nos últimos anos, sendo de assinalar que um melhor conhecimento do nosso país através das visitas de cidadãos noruegueses tem tido efeitos muito positivos na avaliação que fazem do nosso país e, naturalmente, dos nossos produtos.

 

Por outro lado, o aumento significativo a nível da emigração, constituída essencialmente por jovens bastante qualificados, absorvidos pelo mercado trabalho sobretudo nas áreas petrolíferas e do “subsea” mas também a nível da arquitetura, entre outras, aproxima naturalmente os dois países e a forma como se relacionam.

 

 

A Noruega é um país que tem mantido um nível de crescimento económico constante nos últimos anos é próspero e tem uma economia de mercado forte. É claramente um país a analisar e ponderar pelos empresários portugueses?

 

A Noruega em mantido nos últimos anos excelentes níveis de crescimento anuais, bastante acima da média europeia (2,8 % em 2012, 0,8% em 2013 e 1,9% em 2014), o que é de registar sobretudo tendo em conta a quebra que se verificou, a nível europeu e mundial, desde o início da atual crise financeira.

 

Trata-se de um país que, embora naturalmente tenha uma economia muito influenciada pela indústria petrolífera, teve a lucidez e o engenho para complementar esse fator de desenvolvimento através do desenvolvimento de outras áreas, não apenas no seu bem conhecido sector marítimo (pescas, transportes, construção naval), mas também noutras áreas no quadro da energia e de sectores ligados à inovação, o que lhe permitirá encarar de uma forma igualmente positiva um futuro menos dependente do petróleo.

 

Neste sentido, faz todo o sentido que Portugal e os empresários portugueses continuem a avaliar as possibilidades de cooperação que a Noruega poderá oferecer, em várias áreas.

 

 

A balança comercial de Portugal com a Noruega é claramente deficitária. Em sua opinião, que tipo de produtos podem equilibrar este desfasamento da nossa balança, certamente muito provocado pela importação de bacalhau?

 

Se é certo que a importação do bacalhau e de produtos petrolíferos tem marcado de forma significativa o relacionamento entre os dois países, há sinais que permitem encarar de forma positiva a futura evolução nas trocas comerciais.

Há certamente espaço em vários sectores para confirmar essa tendência, tanto nos setores tradicionais como noutras áreas.

 

 

Que tipo de produtos mais importa a Noruega de Portugal?

 

Os principais produtos exportados para a Noruega são sobretudo calçado, produtos do tabaco, vinhos, produtos têxteis /lar, minerais e matérias de construção.

 

 

Quais são os produtos ou serviços com maior apetência para entrar no mercado? Porquê?

 

Há muito produtos com condições para entrar no mercado norueguês. Distinguiria por um lado, para além dos produtos tradicionais, novos produtos, de maior valor tecnológico, nas áreas da metalomecânica, moldes, energias renováveis, biotecnologia, entre outros, que têm condições para se poder posicionar como fornecedores do mercado norueguês, e os produtos alimentares de qualidade, que podem encontrar nos consumidores noruegueses, que têm registado uma alteração de consumo bastante significativa, potenciais clientes. Apontaria como exemplo, neste caso, toda a gama de produtos gourmet e o azeite.

 

 

Os produtos portugueses convencionais como os têxteis, o calçado e o vinho são reconhecidos pelo consumidor norueguês?

 

Como referi, embora se encontre naturalmente, num quadro mais especializado, bons conhecedores dos produtos portugueses, há ainda um certo desconhecimento, não tanto sobre a existência de produtos portugueses tradicionais mas da sua qualidade, e é nessa alteração de paradigma que teremos de continuar a trabalhar.

 

 

O que é necessário para aumentar a notoriedade dos produtos portugueses junto dos consumidores noruegueses?

 

Temos de continuar a trabalhar este mercado, tendo consciência que é um mercado de certa forma já muito “saturado”, estre aspas, na medida em que já foi há muito descoberto por outros países exportadores, pelo que uma entrada neste mercado nunca será muito fácil.

 

A Noruega faz agora parte de um conjunto de 12 novos mercados que serão também acompanhados a partir de agora pela AICEP, o que certamente facilitará a promoção da marca Portugal na Noruega.

 

 

Que conselhos pode dar a um empresário que pretenda exportar ou internacionalizar o seu negócio na Noruega?

 

Penso que serão os conselhos normais a qualquer empresário que queira internacionalizar o seu negócio, o que implica à partida um estudo cuidadoso do mercado e suas necessidades e perfil dos consumidores, bem como das legislações específicas do país de destino.

 

No caso da Noruega, aconselharia também em especial muita perseverança, precisamente porque é um mercado há muito procurado por exportadores de todo o mundo, se distingue por alguma resistência da parte dos agentes económicos que pode fazer levar a desistências precoces, Por outro lado, é um mercado onde as relações de confiança valem ainda muito, e no qual uma segunda oportunidade é rara.

 

 

Com base na sua experiência e no conhecimento do meio empresarial norueguês, acredita que existe ambiente para a constituição de parcerias entre os empresários dos dois países ( joint ventures e outras)? Porquê?

 

As parcerias são sempre positivas e naturalmente há sempre sinergias que convém aproveitar. Já temos um caso de sucesso de investimento português na Noruega, a fábrica da empresa Rui Costa e Sousa no norte do país, que processa bacalhau para exportação. E a pouco e pouco outras empresas portuguesas têm ganho espaço neste mercado em várias áreas.

 

Um dos argumentos que poderá ser decisivo na apresentação dos méritos dessas possíveis parcerias será certamente a possibilidade de fazer valer a nossa ligação a um mercado de 260 milhões de consumidores que falam português, em cinco continentes. Aliás, a Noruega partilha com vários países de expressão portuguesa uma vocação específica nos âmbitos dos setores petrolíferos e do gás, e este é, sem dúvida, um elemento que deve ser aproveitado pelos agentes económicos portugueses.

 

Portugal e a Noruega assumem-se como dois países europeus com extensas áreas marítimas, mas a Noruega é um dos líderes do setor marítimo a nível mundial, representando a economia do mar 20% do PIB, com exclusão do petróleo e o gás natural.

 

Neste contexto, é natural que Portugal encare com muito interesse a cooperação em tudo o que se insira nas áreas da economia do mar, enquadrada num contexto abrangente de investigação científica multidisciplinar e inovadora, compreendendo desde a cooperação científica nas áreas da aquacultura, à biotecnologia do mar, às indústrias offshore e às energias renováveis.

 

J.P.L.

 

 

 

Diplomata de carreira

 

Clara Nunes dos Santos é licenciada em Direito e iniciou a sua carreira diplomática em 1987. Entre outras, desempenhou funções na Direção Geral de Política Externa, Direção Geral dos Assuntos Europeus, na Representação Permanente de Portugal junto União Europeia e como Sub-Chefe de Protocolo de Estado. É Embaixadora de Portugal em Oslo (Noruega) há cerca de dois anos, mais concretamente desde março de 2013.

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