“Devia beneficiar-se quem reduz importações”

Por Revista Invest | 10 de fevereiro, 2015
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    José Couto: “As empresas têm de encontrar formas de se agregar” (Foto Revista Invest)
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    “A falta de dimensão das PME é uma das debilidades” (Foto Revista Invest)
Entrevista com José Couto, presidente do Conselho Empresarial do Centro / Câmara de Comércio e Indústria do Centro, que acabou de renovar o mandato para o triénio 2015-2017

“Se uma empresa portuguesa, que é exportadora, e conseguiu substituir as suas importações através de uma empresa nacional, consideramos que deveria ter benefícios fiscais”, disse José Couto, recém reeleito presidente do Conselho Empresarial do Centro (CEC), para o mandato até 2017.

 

Relevando o crescimento do volume de exportações, que considera assinalável, o dirigente disse que é importante um benefício para as empresas que consigam travar as importações, contribuindo assim para o equilíbrio da nossa balança comercial.

 

Nesta entrevista à Revista INVEST, José Couto sublinha também a necessidade de apoio às empresas exportadoras, bem como aos setores de bens transacionáveis. “Na Região Centro, se olharmos para as estatísticas, percebemos que seis empresas são responsáveis por mais de 1/3 das exportações, que 50 empresas exportam cerca de 45% e depois que existem um conjunto significativo de empresas que exporta o resto. Isto é preocupante.”

 

Qual é, então, a solução? “As empresas têm de encontrar formas de se organizar, de se agrupar, para terem massa crítica”, considera, adiantando que, “muitas empresas, a partir de 2011, procuraram exportar e conseguiram fazê-lo mas com valores sem significado, apenas porque era preciso procurar um mercado lá fora para conseguir faturar. Mas isso não trouxe valor acrescentado”, adiantou. “Como vamos estimular esta ligação? Como vamos ajudar a introduzir instrumentos para que os empresários consigam ter a parceria certa?”, interroga José Couto, considerando, naturalmente, tratar-se de “um grande desafio, que vamos ter de ajudar a ultrapassar”.

 

“Desde 2011 que não somos muito mais a exportar mas aumentou o volume, ou seja, houve uma consolidação de quem já exportava”, pelo que julgo que era “um benchmarking interessante, e um bom exemplo para todos, perceber e utilizar o que foi feito pelas maiores exportadoras portuguesas ao nível da sua modernização”.

 

 

Debilidades e oportunidades

 

A falta de dimensão das PME para exportar e, eventualmente, para iniciar um processo de internacionalização, constitui, na ótica de José Couto, uma das debilidades da indústria nacional, obstáculo que pode ser apoiado pelo novo quadro. “A minha preocupação é saber se vamos apoiar a deslocalização, porque muitas empresas necessitam de ter estruturas físicas lá fora e tenho dificuldade em perceber como se vai fazer, pois isso neste quadro comunitário não está claro”.

 

Os novos fundos comunitários devem ser aproveitados para a modernização tecnológica, considera o presidente do CEC, salvaguardando, contudo, que “é fundamental investir nos recursos humanos, pois não há modernização tecnológica sem qualificar as empresas”. Reforça que não devem ser apenas novas pessoas, “mas também novos processo de gestão, o que é uma revolução que tem de feita rapidamente nas empresas portuguesas para serem comparáveis em termos europeus”.

 

E a oportunidade surge agora com o arranque do novo programa-quadro, o Portugal 2020 e, na variante regional, o Centro 2020, cujas candidaturas deverão iniciar-se em março. Manifestando-se satisfeito pelas propostas do CEC terem tido acolhimento junto da CCDRC (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, a entidade de gestão do Programa), José Couto dá enfoque à necessidade das empresas criarem plataformas de cooperação com as instituições do ensino superior: “Temos de fazer a drenagem das universidades para as empresas”, diz, referindo-se a pessoas e conhecimento e também a tecnologia”. Parcerias para a qual existem apoios disponíveis no âmbito do Centro 2020.

 

“Quer do lado das empresas quer do lado das universidades e dos centros de saber, vamos ter de encontrar formas de colaborar”, convicção do dirigente, entendendo que “há uma linguagem que não une, que até afasta, pois existem timings e formas de relacionamento diferentes”.

 

Essa necessidade existe, por parte das empresas, como recordou o dirigente à INVEST, com um exemplo decorrido há cerca de dois anos: “Temos um caso de dez empresas exportadoras da região que demonstraram ter a necessidade de falar com centros de saber e pediram-nos ajuda para fazermos a ligação. Na altura, a proposta que fizemos, é que as empresas apresentassem cadernos de encargos às universidades. Isto é, se queremos contratualizar esta relação com a universidade, isso implica ter resultados, objetivos e calendarizar o processo. E se isto acontecesse provavelmente aderíamos mais rápido e trataríamos a universidade como um fornecedor a este nível, mas julgo que teremos de encontrar uma fase intermédia”.

 

 

Financiamento? Onde?

 

Se a primeira prioridade deste novo mandato “é ajudar e facilitar as empresas a conseguir ultrapassar alguns obstáculos para a conceção de projetos aos quadros comunitários”, José Couto ressalva também a necessidade dos empresários se focarem em programas de apoio ao investimento, “nacionais e internacionais, que permitam obter ganhos importantes e onde o seu investimento possa encontrar vantagens”.

 

Outro dos objetivos do CEC é tentar ajudar a ultrapassar outras das preocupações dos empresários, “que é a falta de financiamento, pois há um conjunto significativo de empresas que não tem acesso”, adiantou, baseando-se nas frequentes reuniões entre a estrutura empresarial e o tecido económico. “ Não é financiamento para o seu fundo de maneio, mas para aquilo que é o futuro, como modernização e processos de internacionalização”, até porque “muitas empresas chegaram a esta fase com desgaste financeiro e vamos entrar neste quadro deterioradas com alguns rácios que não serão os mais indicados”, justificou.

 

E deixa a mensagem: “É importante que o Governo perceba que através de fundos, ou da nova instituição Banco de Fomento, ou fazendo outras ações, temos de dar esta possibilidade do dinheiro chegar à atividade produtiva”.

 

Muito já se disse do Banco de Fomento e das suas eventuais valências. Diz-se, por exemplo, que é para ajudar a capitalizar as empresas. É isso? O presidente do CEC mostra-se reticente com a pergunta e diz apenas que “pouca gente saberá o que vai fazer esse novo banco. Julga-se que terá as funções de «grossista» e terá a função de fazer chegar rapidamente o dinheiro às empresas através da rede da banca comercial. Mas desconhecemos a forma como o fará”.

 

E quanto à Centro Venture, uma sociedade de capital criada pelo CEC e pelo Banif, que nasceu para apoiar projetos empresariais e startups? Para já, ainda não é um recurso, admitiu o dirigente, esclarecendo que “o projeto está em standby”, depois da Patris Capital ter comprado a posição do Banif, na sequência da reorganização daquele grupo financeiro.

 

 

Ideias e projetos de negócio

 

Para incentivar startups, o CEC tem duas «ferramentas» mais visíveis, designadamente o curso de empreendedorismo de base tecnológica, com três universidades – Aveiro, Covilhã e Coimbra, que vai na sua 7ª edição, e o projeto Mentor, que pretende apoiar a germinar a ideia de negócio. “Este último é o resultado de uma constatação, a qual também me apercebi enquanto business angel”, da existência de ideias com necessidade de apoio para passarem a projeto empresarial, esclareceu. “Nesta fase inicial, os empreendedores ficam fora daquilo que é o espectro do financiamento, seja por business angels ou pelos bancos”, para o qual “é necessário financiar com ajuda”, o que pode ser feitos pelos mentores.

 

São ideias que podem sair do papel e até ocupar uma das 12 incubadoras existentes na Região Centro, o que, na opinião de José Couto, é um número assinalável: “Temos mais incubadoras no Centro do que a região de Paris, que deverá ter o dobro da nossa população”, o que “não tem sentido, pois a quantidade não trás sempre qualidade” E adianta: “Se todos fizermos uma incubadora no nosso município, e fizermos espaços para alojar 10 ou 12 empresas, nalguns casos 40, e percebemos todos, ao fim de algum tempo, que temos de repensar o projeto. No entanto, repensamos sempre o projeto numa lógica de destruição comparada. Comparamos com os outros, e como eles têm melhor do que nós, vamos destruir o que fizemos para recomeçar com o mesmo princípio”.

 

“Sei que há mais três incubadoras para serem criadas na Região Centro”, revela, avisando, no entanto, “que o mercado é limitado”.

 

 

João Paulo Leonardo

 

 

 

 

Reorganizar para apoiar

 

 

O primeiro mandato de José Couto na presidência do CEC foi dedicado à reorganização e reestruturação da estrutura, a qual conhece bem, uma vez que era vice-presidente da direção nos anteriores órgãos sociais.

 

 “Tínhamos entre 39 e 42 associações associadas, que estavam numa lógica distrital, mas com a alteração em termos de reorganização do território, em que o foco passou a estar na NUT II e NUT III, e em que aparecem as comunidades intermunicipais, tinha todo o sentido que o CEC se reformulasse e que procurasse responder a este novo desafio”.

 

A situação financeira não ajudou e ainda hoje o CEC tem um passivo superior a 600 mil euros, o que condicionou a atividade, como reconhece o dirigente: “Se tivéssemos uma situação financeira cómoda, poderíamos ter realizado mais projetos, porque é disto que se trata – o CEC quer ser uma forma de chapéu para poder ajudar os seus associados para poderem ajudar mais as empresas e os empresários.

 

“Este passivo teve a ver com a ação das suas associadas”, justifica, explicando que “há dez anos, as associações empresariais encontravam-se num beco sem saída, não conseguindo cumprir as suas responsabilidades e o CEC apanhou as dores desta má gestão”.

 

Atualmente, o CEC / CCIC agrega 46 associações dos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu e, por essa via, mais de 40 mil empresas.

 

 

 

 

Um dirigente com experiência empresarial

 

É economista, de formação académica, empresário, pelo lado profissional.

 

José Couto, de 55 anos, é natural de Viseu e reside na Figueira da Foz, concelho onde é administrador e gerente de sete empresas, ligadas à indústrias de plásticos, moldes, saúde, ambiente e engenharia. É também business angel e gestor de uma sociedade veículo.

 

Além da presidência no CEC, desde 2010, é vice-presidente em exercício da RIET Rede Ibérica de Entidades Transfronteiriças, vogal da direção da CIP (CEP – Conselho Empresarial de Portugal) e membro da direção da Incubadora de Empresas da Figueira da Foz.

 

É também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Coimbra e do Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal da CIM Região de Coimbra.

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