A nave espacial terra (5ª parte) – por João Carlos Pereira

Por Revista Invest | 26 de maio, 2015
  • Análise
    OPINIÃO por João Carlos Pereira (Foto Revista Invest)
“Somos governados por políticos que deveriam, como diz o ilustre presidente da Cáritas Portuguesa, ser servidores do bem comum, mas a realidade diz-nos que bem comum já não existe” (…)

O presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, afirmou, há bem pouco tempo que, o seguinte: “Temos cada vez mais pessoas a cair na pobreza extrema, na pobreza mais severa. Não só há mais gente pobre, como gente muito, muito pobre. A forma de retirar essas pessoas da pobreza é dar-lhes a oportunidade de acederem a um novo posto de trabalho. Mas não é com a redução das medidas de proteção social que se consegue atenuar a pobreza, antes pelo contrário. Se não houver uma estratégia bem objetiva que tenha como fim as pessoas e não o capital, muitas pessoas não voltam a encontrar o posto de trabalho que perderam. Não sei o que é que poderemos ganhar com isso, porque depois de superada a crise, não sei se teremos as pessoas animicamente preparadas e motivadas, para contribuírem para o desenvolvimento do país como todos desejamos. É importante que os políticos, enquanto servidores do bem comum, e não enquanto servidores de interesses pessoais ou corporativos, defendam as populações e sobretudo os mais fragilizados entre as populações.”

 

Esta abordagem deste eminente defensor dos mais elementares direitos humanos peca por ser demasiado branda. O que se passa neste cantinho da Europa, é demasiado grave para ser contido nas sábias palavras atrás transcritas.

 

Nos últimos 40 anos, Portugal perdeu qualidade de vida, perdeu poder, perdeu afirmação, perdeu o respeito, perdeu a força financeira, ganhou incompetência a rodos, corrupção, desigualdade, passámos de colonizadores a colonizados, somos governados por gente sem nível, sem vergonha, o capital financeiro tem reduzido a novas formas de escravidão fileiras inteiras de trabalhadores, reformados, pensionistas, as crianças não nascem, e as que nascem olham, co horror, o futuro que as espera!

 

Somos governados por políticos que deveriam, como diz o ilustre presidente da Cáritas Portuguesa, ser servidores do bem comum, mas a realidade diz-nos que o bem comum já não existe, e os quinhões que restam são abocanhados pelos mesmos políticos, para manterem o seu gordo e lustroso poder, e para as suas gerações, não sei se ínclitas! E, quando toca ao teatro das eleições, ei-los a prometer tudo, o que têm, mas muito mais o que não têm, que sabem que nunca, nunca vão cumprir, para que o povo vá lá para a filinha, e deposite o papelinho mágico, com a respetiva cruzinha, no muito importante respetivo lugar!

 

O que estamos a construir para os nossos filhos? Grilhetas, bilhetes para remar nas galés, muros, muros cada vez mais altos, para nos sepultar num esclavagismo sórdido e indigno. Foi para isto que Reis, Templários, Intelectuais, Homens das Letras e Homens sem Letras, Povo, algum Clero e Nobres, Republicanos, Salazar, soldados tombados e outros que ainda hoje vivem as visões de África, foi com o sangue, suor e lágrimas de quase 9 séculos de história, foi para isto…foi, foi o trabalho dos nossos avós e avós de avós, curvados pelo esforço, mas olhar firme num horizonte de esperança, por pequena que fosse, foi para isto, para ter esperança nenhuma, fugir do país, e deixar o mais lindo retângulo de terra do mundo, entregue a abutres, velhos de olhar perdido, a calcar a terra que os chama, e exércitos de desempregados, alguns camuflados em cursos de formação profissional, para entreter o dia e receber uns míseros subsídios de refeição, sim, porque se não vais ao “curso”, cortam-te o parco subsídio que te deram, e tu és um privilegiado, porque o livre arbítrio da concessão de subsídios tudo permite a quem os concede…

 

E isto é só aqui, neste Portugal?

 

É claro que não, o vírus está espalhado, e a dor campeia…mas aqui, cá, é gritante, é revoltante, o que se podia ter feito e não se fez, o que podíamos ter construído, em termos de centrar as pessoas e não o betão, mas é claro que o betão dá mais, e precisamos de mais estradas, para termos mais ladrões, mais Porsches, Ferraris, iates, palácios, tudo a desfilar, perante um país amarrado ao pedregulho da pobreza, e que se vai aproximando da falésia, que cai sobre o oceano…

 

Como Leonard Cohen dizia, do alto do seu admirável génio, na canção “The Future”, o futuro é assassínio, roubo, o futuro é o controlo total sobre tudo e todos, por uma minoria de elite, escravidão, tortura, desespero, degola de sonhos, dois riscos sobre tudo o que queríamos da liberdade!

 

O futuro, neste país, já começou….

 

 

 

N.R. Leia a primeira, segunda, terceira e quarta parte desta crónica.

 

 

PERFIL João Carlos Pereira é licenciado em Economia (FEUP), Pós- Graduado em Economia Europeia (FDUC), Mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África (ISCTE), MBA (EUDEM) e MBA Internacional.

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